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Tuesday, August 17th, 2010 | Author:
 CAPÍTULO PRIMEIRO :
A minha primeira experiência dolorosa foi quando meus pais decidiram não mais perder um filho por problemas de doença, pois já dois de meus irmãos (Mario e Edmilson)  havia morrido com crupe no interior de Pernambuco, sem condições de obter a assistência médica necessária para salvá-los, e com isto minha mãe e meu pai decidiram ir para a “capitá” Rio de Janeiro.
Sair daquela casa de sapê com mosquitos, tendo que suportar o cheiro de candeeiro de querozene quando o apagavam para dormir, e sentar nú em cima da mesa (no canto é claro para eu não cair) comendo na cuia junto com as moscas, as papas que minha mãe fazia, foi muito bom. Porém, ter que deixar o meu velocípede!?… Sim eu tinha um, apesar de toda pobresa. Não sei como meu pai o conseguiu, mas eu tinha um, e que me fazia muito feliz “velocipar” com êle no quintal.
Durante muito tempo viajando de carroça e de lotação até chegarmos a Recife, Cidade onde fui registrado, eu só pensava no meu velocípede vermelhinho barulhento, que quando eu usava, fazia um barulho imenso e me parecia que, para todos deveria ser horrivel, porque sempre brigavam comigo quando eu estava velocipando, mas, para mim, soava como trompetas divinas. Aquele foi o meu primeiro mundo de felicidade que eu perdi.
 
Talvez tenhamos sido uns dos poucos nordestinos pobres que foram de navio para o Rio de Janeiro; e não de caminhão “Pau de Arara”, como foram tantos e assim ficaram conhecidos. Minha tia madrinha que já estava morando no Rio de janeiro havia casado com um marinheiro, e conseguiu que fôssemos em 1951, para o Rio de Janeiro no porão de um Navio (Santarem) que iria transportar açucar para a Bahia e Rio de janeiro. E lá fomos nós para aquele porão excessivamente quente e úmido, com tantos percevejos no colchão, que minha mãe à noite tinha que colocar algodão em nossos ouvidos para que não entrassem as aquelas pequenas criaturas (que Segundo ela), eram horripilantes.
Mas isto não me fazia sofrer, pois era tudo novidade. Só a lembrança do meu velocípede vermelhinho me fazia triste.
Juntamente com a gente (meu pai, minha mãe e minha irmã viera também uma tia que tivera a oportunidade de conhecer Lampião e servir água para êle no sertão nordestino. Ela era uma mulher que não sabia ler nem escrever, e sem muitos atrativos físicos que pudesse atrair um companheiro. Mas era, sem dúvida alguma, uma pessoa muito humana, sempre querendo ajudar, e, foi ela quem praticamente cuidou de mim, não somente naquele navio como também durante um grande período de minha infância.
No navio, não sei como, ela fez amizade com um marinheiro e conseguia umas bandas de pão com uma manteiga que eu não sabia que gosto tinha, mas não era de manteiga!
Ela, com muito cuidado, sempre às escondidas, conseguia me levar para o convés onde eu via o mar; e era quando eu mais me recordava do meu vermelhinho barulhento. Algumas vezes eu me lembro que tinhamos que nos esconder para que outros homens que trabalhavam no navio não nos vissem. Deviam ser delatores ou donos do navio, porque muitos anos depois vim a descobrir que éramos clandestinos naquela viagem.
Depois que o navio parou na Bahia para descarregar, a inclinação do navio melhorou e eu via todos “ os clandestinos” sem tanto mêdo de que o navio afundasse, pois a carga fazia com que o navio fosse inclinado até que descarregaram parte da carga que ficou na Bahia.
Uma vez que a ameaça de que o navio afundasse melhorou, para mim, a situação ficou bastante dolorida, pois não somente me afastava do meu vermelhinho barunhento, como também peguei uma doença no couro cabeludo, e em alguns dias com a cabeça cheia de feridas perdi o cabelo; Pela primeira vez!…
As emoções da saída daquela casa de sapê, da minha cuia, das moscas, da viagem de carroça e de lotação para Recife, dos percevejos do navio, que em alguns momentos era divertido, ve-los morrer, quando nós, as criancas que estavam naquele porão, pegávamos e colocávamos em frente a meu pai que fumava muito e queimáva-os com a brasa do cigarro.  As angustias que eu passava sem poder colocar minha cabeca no pano que chamavam de “ fronha”, porque as feridas colavam ao pano durante a noite e ficava mais dolorido quando minha mãe e minha tia no dia seguinte tentavam descolar as fronhas do meu couro cabeludo que já não estava cabeludo; Tudo isto, ainda não era mais sofrido do que saber que estava me afastando do meu vermelhinho barulhento.
No segundo dia de carnaval do ano de 1951, o navio aportou no Rio de Janeiro e começamos a ouvir um barulho que era para mim, muito diferente. Talvez tenha sido ai, que eu descobrí que aqueles sons chamavam de música. Era música sim, porque o bloco carnavalesco vassourinha estava também no navio e, ao aportarmos começaram a festa. Foi fácil poder ver todo aquele movimento, pois tínhamos que sair do navio junto com todos os demais passageiros e tripulantes, para que não descobrissem que éramos clandestinos.
Eu, nos ombros do meu pai, minha mãe , minha irmã e minha tia, descemos as escadas que balançavam mais que as folhas da goiabeira, que existia nos fundos daquela casinha de sape que haviamos deixado para trás em dia de vento. Ali naqueles momentos descobri que, de repente eu jamais iria ver o meu vermelhinho barulhento outra vez.
Estavamos em outro mundo e, este mundo tinha que ser melhor que a vida que vivêramos no interior de Pernambuco.
Aquela era a cidade na qual uma outra vida me esperava. Estávamos, segundo meu pai; Na “ capitá ” Rio de Janeiro. Aí sim tive certeza de que a distância do meu vermelhinho barulhento, viera a ser minha primeira perda na vida.
“veja toda semana um novo capítulo”