Thursday, September 30th, 2010 | Author:

” As vidas que eu vivi nesta vida”

Quando chegamos a casa onde minha tia madrinha morava achei diferente  ao ver tantas árvores pintadas com tinta Branca do chão até pelo menos minha altura., Eu nao sabia que era cal, para evitar que insetos subissem a árvore, protegendo-as de doenças.  Era muito bom  ver aquela  casa  bonita, muito grande e diferente da que vivíamos no interior de pernambuco. Tinha um jardim bem tratado e alguma redes na varanda e tudo parecia muito alegre e por momentos fiquei feliz em saber que de repente meu vermelhinho barulhentos estivesse ali me esperando.

Não, não estava!.. e a quela felicidade com certeza não iria durar  por muito tempo.

Naquela noite, vi que alguma coisa não agradava a minha mãe, porque minha tia falava muito sobre as feridas do meu couro cabeludo, que na verdade já não estava tão cabeludo, pois o cabelo estava caindo muito rápido. meu sofrimento se fez presente quando na manha seguinte todos sairam fincando somente eu e minha adorada tia/madrinha que  me pegou pelo braço com alguns panos e me levou para debaixo de um pé de coqueiro passando antes por uma larangeira de onde tirou alguns espinhos para começar o tratamento, que para mim, foi sofrido, porque ela furava as feridas espremia e colocava um remédio preto cujo nome ela chamava de elixir sanativo.

O nome podia ser sanativo, mas maltratava muito, porque cada vez que ela espremia as feridas, vinha uma expectativa muito grande de mais dor porque com certeza o chumasso de algodão com elixir sanativo vinha em seguida.  Eu chorava muito e tenho certeza de que eu gritava, porém como estavamos muito longe da casa, ninguem  ouvia, porque nunca aparecia ninguem para me socorrer.

E este  martirio foi por muitos dias até que um dia minha tia já precisou fazer os curativos.

Este momento de relato não é maldizendo as ações de minha tia porque embora eu tenha sofrido muitos dias de dores,  principalmente quando ela colocava o tal do sanativo, as feridas sararam e eu pude dormir sabendo que no dia seguinte não sofreria tendo minha mãe que descolar as fronhas  de meus couro cabeludo.

A vida me pareceu bem melhor porque agora eu comia outros tipos de comida. Um dia minha tia colocou no meu prato uns grãos pretos que vim a descobrir depois ser feijão preto, porque em recife eu nunca houvera visto ou comido aquele tipo de feijão. Gostei muito da nova comida e sempre que se cozinhava o feijão preto meu dia era sempre melhor. E quando a comida era servida, minha tia Dulce  sempre se elevava, dizendo para minha mãe: Viu só como ele gosta da minha comida?!… É, a vida começou a mostrar-me outra coisa o desejo de ser elogiado, porque ela se fazia muito feliz sempre que colocava a posição de que eu gostava da comida dela. E isto tambem me fazia feliz, porque nestes momentos, eu não era maltratado, a vóz dela era mais agradável e eu me sentia mais confortável.

Os dias foram passando e comecei a esperimentar uma sensação que eu não havia esperimentado antes; O mêdo!…

A noite quando nos reuníamos após a janta,  sob a luz dos candeeiros os adultos falavam sobre personagens que eu até então  nunca houvira falar. Falavam sobre a mula sem cabeça sobre o lobisomen, sobre os fantasmas que viviam na casa abandonada, onde  usavam para guardar as frutas colhidas na produção da fazenda.  Onde  ninguem ia durante a noite por causa dos fantasmas que lá viviam. Ou seja falavam de tudo que pudesse entrete-los, porém,  para mim foi quando comecei a desenhar em minha mente um outro mundo, no qual eu ainda, não houvera vivido, o mundo do medo.

Os dias se passavam, e como meu pai trabalhava na olaria da fazenda, na produção de telhas, e tijolos, conhecida como fazenda da Banca, e chegava em casa ainda durante o dia, e com isso, a noite não me era totalmente assombrosa, porque eu sempre ficava perto dele, de minha mãe e muitas vezes perto de minha tia Naiza, que tinha um apego muito grande comigo,  até que o sono tomava conta de mim. E, como, segundo os adultos que falavam sobre aqueles seres horripilantes os monstros só apareciam a noite, o dia era para mim o principal refúgio, e, com isto eu me afastava sempre dos lugares escuros pois os lugares escuros me pareciam noite. Noite para mim, só perto do meu pai ou da minha mãe ou de minha tia Naiza.

O medo agora fazia parte de mim, vivia  dentro de mim e, eu não conseguia colocá-lo para fora, ele vivia comigo agora para sempre. E este passou a ser o meu pior inimigo, pois o inimigo, maltrata e faz a gente sofrer. O conhecimento do desconhecido me apavorava e tudo se tornou um mundo de incertezas, de defesa, de insegurança e perda, porque eu pensava que qualquer coisa que pudessemos obter, poderia ser tirado da gente, quando aqueles monstros viessem e nos matassem. E a palavra morte e a existência da morte, se fez presente pela primeira vêz em minha vida, quando um empregado da fazenda foi encontrado morto e pude vê-lo já num estado em que cheirava mal. Naquela noite, as conversas sobre a morte do colono era sempre culpando algum ser fantasmagórico, dos quais eu ouvia falar  nas noites de conversa entre os adultos. As vezes, para me amedrontar mais tentando fazer-me obedecer. Ficavam em silencio e me perguntavam: Está ouvindo esse barulho lá fora?!.. é a mula sem cabeça procurando crianças desobedientes. Ai simm, tornei-me uma criança medrosa,  insegura e sem vontade de estar só, principalmente à noite.

E se me deixavam só em um único momento que fosse,  o meu inimigo medo se fazia presente com tal intensidade que eu precisava estar perto de alguém imediatamente para mantê-lo longe junto com os monstros, mulas sem cabeça, lobisomen, etc.  E com isto criei alguns problemas para mim, pois a solidão como a que eu tinha junto com meu vermelhinho barulhento, já não podia ser minha companheira.

 E esta passou a ser mais uma vida que eu vivi nesta vida; A vida do medo!…

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